Descobrir Jorge de Sena
 
CENÁRIO

O poema que se segue e a reprodução que o acompanha ("O Balouço", de Fragonard) constituem o vosso cenário de trabalho.

"O Balouço", de Fragonard

 

Como balouça pelos ares no espaço 

entre arvoredo que tremula e saias

que lânguidas esvoaçam, indiscretas!

Que pernas se entreveem, e que mais

não se vê o que indiscreto se reclina

no gozo de escondido se mostrar!

Que olhar e que sapato pelos ares,

na luz difusa como névoa ardente

do palpitar de entranhas na folhagem!

Como um jardim se emprenha de volúpia,

torcendo-se nos ramos e nos gestos,

nos dedos que se afilam, e nas sombras!

Que roupas se demoram e constrangem

o sexo e os seios que avolumam presos,

e adivinhados na malícia tensa!

Que estátuas e que muros se balouçam

nessa vertigem de que as cordas são

tão córnea a graça de um feliz marido!

Como balouça, como adeja, como

é galanteio o gesto com que, obsceno,

o amante se deleita olhando apenas!

Como ele a despe e como ela resiste

no olhar que pousa enviesado e arguto

sabendo quantas rendas a rasgar!

Como do mundo nada importa mais!

Jorge de Sena, METAMORFOSES 

 

 

   
   
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